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O crescimento das apostas no Brasil: por que as bets se tornaram um problema de saúde pública?

Nos últimos anos, os jogos de apostas online deixaram de ser uma atividade distante da rotina da maioria dos brasileiros e passaram a ocupar um espaço cada vez maior no cotidiano da população.


Eles aparecem nos intervalos dos jogos de futebol, nas camisas dos clubes, em comerciais de televisão, nas redes sociais, nos vídeos de influenciadores e em anúncios que prometem facilidade, entretenimento e ganhos rápidos. Ao mesmo tempo, jogos de cassino online — como os caça-níqueis virtuais, popularmente conhecidos como "tigrinho", além de roletas, crash games e outras modalidades — passaram a ser amplamente divulgados e acessíveis por meio de aplicativos e plataformas digitais.


Com poucos cliques, qualquer pessoa maior de idade pode criar uma conta, fazer um depósito pelo celular e começar a jogar. Esse crescimento não aconteceu por acaso. Ele é resultado da combinação entre mudanças legais, avanço das plataformas digitais, publicidade intensa, facilidade de acesso e da crescente popularização dos jogos de apostas online no Brasil.


Esse fenômeno ganhou força especialmente após a legalização das apostas de quota fixa em 2018 e a regulamentação do setor pela Lei nº 14.790/2023. A partir de 2025, o país passou a operar com um mercado regulado de apostas, com empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda.


Mas, junto com a expansão econômica desse mercado, surgiu uma preocupação crescente: os impactos dos jogos de apostas na saúde mental, nas finanças das famílias e na vida social. Hoje, o crescimento desse setor não pode ser entendido apenas como uma mudança no entretenimento ou no consumo digital. Ele também precisa ser compreendido como uma questão de saúde pública.


Como as apostas se tornaram tão presentes no Brasil?


Durante muito tempo, o jogo de azar no Brasil esteve associado principalmente às loterias, ao jogo do bicho, aos bingos e aos caça-níqueis clandestinos. Esse cenário mudou profundamente com a expansão das tecnologias digitais. O que antes exigia deslocamento físico, contato com intermediários ou participação em ambientes específicos passou a caber na tela de um celular.


Essa mudança reduziu barreiras importantes. A pessoa não precisa mais sair de casa, carregar dinheiro em espécie ou esperar dias para conhecer o resultado. Em muitos jogos, basta abrir um aplicativo, fazer um Pix e apostar novamente poucos segundos depois. Ao mesmo tempo, as plataformas passaram a reunir diferentes modalidades de jogo em um único ambiente. Além das apostas esportivas, passaram a oferecer caça-níqueis virtuais, roletas, blackjack, jogos ao vivo e diversas outras opções que podem ser acessadas a qualquer momento.


Outro fator importante foi a mudança na forma como esses jogos passaram a ser apresentados ao público. As apostas esportivas se aproximaram do universo do futebol por meio de patrocínios a clubes, campeonatos e transmissões esportivas. Já os jogos de cassino online ganharam enorme visibilidade nas redes sociais, impulsionados por influenciadores digitais, vídeos curtos e campanhas publicitárias que frequentemente destacam histórias de ganhos rápidos. Como consequência, apostar deixou de parecer uma atividade distante da realidade da maioria das pessoas. Para muitos brasileiros, tornou-se apenas mais um aplicativo disponível no celular.


O crescimento em números


Os dados disponíveis mostram que o fenômeno já alcançou proporções relevantes. Um levantamento publicado pela Revista Pesquisa FAPESP estimou que 10,9 milhões de brasileiros com mais de 14 anos, o equivalente a 6,8% dessa população, apostam de uma forma que pode colocar em risco a saúde, as finanças, o trabalho ou os relacionamentos.


O Ministério da Saúde também reconheceu a relevância do problema ao publicar, em 2026, um guia nacional de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas no âmbito do SUS. O documento aponta que a expansão das apostas online introduziu novos riscos, especialmente pela facilidade de acesso, pela publicidade intensa e pelo uso de dispositivos móveis.


Outro dado importante é que o SUS passou a organizar estratégias específicas para esse público. Em 2026, o Ministério da Saúde anunciou teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, com acesso pelo Meu SUS Digital. Em 2025, o SUS registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos e apostas. Esses números ajudam a mostrar que não estamos falando apenas de casos isolados. Estamos diante de um fenômeno social amplo, recente e em rápida expansão.


Por que isso preocupa a saúde pública?


Quando pensamos em alguém que sofre com apostas, é comum imaginar apenas o prejuízo financeiro. De fato, as perdas de dinheiro podem ser graves. Muitas pessoas acumulam dívidas, recorrem a empréstimos, usam limite bancário, vendem bens ou escondem gastos da família. Mas o impacto da ludopatia e dos problemas relacionados ao jogo vai muito além das finanças.


As apostas problemáticas estão associadas a sintomas de ansiedade, depressão, culpa, vergonha, isolamento social, conflitos familiares, ruptura de vínculos, queda de desempenho no trabalho e maior risco de comportamento suicida. O próprio Ministério da Saúde descreve o jogo patológico como uma condição associada a prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.


A Organização Mundial da Saúde também reconhece o jogo como um comportamento potencialmente prejudicial à saúde, especialmente quando associado a sofrimento mental, endividamento, conflitos familiares e risco aumentado de suicídio. Por isso, olhar para esse tema apenas como uma escolha individual é insuficiente.


Quando milhões de pessoas são expostas diariamente a plataformas de apostas, publicidade agressiva, jogos instantâneos e mecanismos digitais de engajamento, o problema deixa de ser apenas privado. Ele passa a envolver prevenção, regulação, educação, cuidado em saúde mental e proteção de grupos vulneráveis.


O problema não afeta apenas quem aposta


Um dos pontos mais importantes é que os danos causados pelas apostas raramente ficam restritos à pessoa que joga. Parceiros, filhos, pais, amigos e colegas também podem ser afetados. A família pode conviver com mentiras, perda de confiança, instabilidade financeira, cobranças, conflitos constantes e medo do futuro. Em muitos casos, o sofrimento dos familiares começa antes mesmo de a pessoa reconhecer que perdeu o controle sobre as apostas.


Segundo a Organização Mundial da Saúde, para cada pessoa que aposta em níveis de alto risco, em média outras seis pessoas são afetadas, geralmente familiares e pessoas próximas.

Esse dado muda completamente a forma como entendemos o problema. A ludopatia não é apenas uma dificuldade individual de controle. Ela pode comprometer a segurança financeira da família, a qualidade dos vínculos, a saúde emocional de parceiros e filhos e a estabilidade de toda uma rede de apoio.


Por que as apostas online aumentam o risco?


Nem toda aposta tem o mesmo potencial de risco. Apostas esportivas, cassinos online, roletas digitais, jogos do tipo “tigrinho” e jogos de resultado instantâneo funcionam de maneiras diferentes. Nas apostas esportivas, geralmente existe algum intervalo entre a aposta e o resultado. A pessoa aposta antes ou durante uma partida e precisa aguardar o desfecho do evento.


Já em muitos cassinos online, o ciclo é muito mais rápido. A pessoa aposta, recebe o resultado em segundos e pode apostar novamente imediatamente. Essa velocidade favorece a repetição. Além disso, muitos jogos utilizam recursos visuais, sons, bônus, rodadas extras, quase acertos e recompensas intermitentes. Esses elementos tornam a experiência mais estimulante e podem aumentar a dificuldade de parar.


Do ponto de vista psicológico, isso importa muito. Comportamentos que produzem recompensas rápidas, variáveis e imprevisíveis tendem a ser mais difíceis de interromper. A pessoa não sabe exatamente quando virá o próximo ganho, e essa imprevisibilidade pode manter o comportamento por muito tempo. É por isso que jogos instantâneos e de repetição contínua costumam preocupar tanto os profissionais da saúde. Eles reduzem o intervalo entre desejo, aposta, resultado e nova tentativa.


O papel da publicidade e da normalização das apostas


Outro fator importante é a normalização das apostas. Quando uma prática aparece repetidamente em comerciais, programas esportivos, redes sociais e patrocínios de clubes, ela passa a parecer comum, segura e socialmente aceita. Isso não significa que toda publicidade cause dependência. Mas a exposição intensa pode aumentar a curiosidade, reduzir a percepção de risco e estimular o início do comportamento, especialmente em pessoas mais vulneráveis.


A publicidade também costuma enfatizar ganhos, bônus, diversão e pertencimento, mas raramente mostra com a mesma força as perdas financeiras, o sofrimento emocional e os impactos familiares. Esse desequilíbrio cria uma percepção distorcida. A aposta aparece como entretenimento. O risco aparece como detalhe.


Quem pode estar mais vulnerável?


Qualquer pessoa pode desenvolver problemas com apostas, mas alguns fatores aumentam o risco.


Entre eles estão:

histórico de impulsividade, dificuldade para lidar com emoções, sintomas de ansiedade ou depressão, uso problemático de álcool ou outras substâncias, histórico familiar de dependência, exposição precoce ao jogo, endividamento, isolamento social e crenças distorcidas sobre sorte, controle e recuperação de perdas.


Também é importante considerar fatores sociais. Pessoas em situação de vulnerabilidade econômica podem ser especialmente impactadas por promessas de ganho rápido. Quando a aposta passa a ser vista como uma possível saída financeira, o risco aumenta.


O Ministério da Saúde também destaca que grupos socialmente vulneráveis, jovens, idosos, pessoas com histórico de transtorno mental ou uso de álcool e outras drogas podem ser mais suscetíveis aos efeitos negativos dos jogos de apostas.


O desafio não é apenas individual


Durante muito tempo, os problemas relacionados às apostas foram tratados como uma questão de responsabilidade individual. A ideia era simples: “basta ter controle”. Mas essa explicação é limitada. É claro que escolhas individuais importam. Porém, elas acontecem dentro de um ambiente desenhado para estimular o comportamento de apostar.


As plataformas reduzem barreiras, facilitam depósitos, oferecem bônus, enviam notificações, tornam o jogo disponível 24 horas por dia e usam estratégias de engajamento semelhantes às de outros produtos digitais. Quando esse ambiente se combina com vulnerabilidades emocionais, financeiras ou cognitivas, o risco aumenta.


Por isso, a pergunta mais útil não é apenas:

Por que essa pessoa não para?

A pergunta mais importante é:

O que está mantendo esse comportamento?


Essa mudança de olhar é fundamental. Ela permite sair do julgamento moral e entrar em uma compreensão clínica, psicológica e social do problema.


O que significa tratar as apostas como saúde pública?


Tratar as apostas como uma questão de saúde pública não significa afirmar que toda pessoa que aposta tem um transtorno. Também não significa proibir qualquer forma de entretenimento. Significa reconhecer que, quando uma prática causa danos relevantes em uma parcela da população, é necessário pensar em prevenção, informação, regulação, cuidado e tratamento.


Isso envolve campanhas educativas, restrição de publicidade abusiva, proteção de grupos vulneráveis, treinamento de profissionais da saúde, acesso a tratamento baseado em evidências e políticas que reduzam danos.


Em 2026, o Brasil defendeu a inclusão dos impactos das apostas online na agenda global de saúde pública da OMS, destacando sofrimento psíquico, comportamentos de risco e agravamento de vulnerabilidades sociais. Esse movimento mostra que o debate deixou de ser apenas econômico ou jurídico. Ele também é um debate sobre saúde mental.


Conclusão


O crescimento das apostas no Brasil é um fenômeno complexo. Ele envolve tecnologia, legislação, publicidade, esporte, economia, comportamento humano e saúde mental. As bets cresceram porque se tornaram acessíveis, rápidas, presentes e socialmente normalizadas. Mas esse crescimento também trouxe consequências importantes: aumento do risco de endividamento, sofrimento psicológico, conflitos familiares e desenvolvimento do Transtorno do Jogo em pessoas vulneráveis.


Por isso, falar sobre apostas não é apenas falar sobre dinheiro. É falar sobre comportamento, saúde mental, família, prevenção e cuidado.


A pergunta que precisamos fazer não é apenas por que tantas pessoas começaram a apostar. É também por que algumas delas não conseguem mais parar. E essa resposta passa pela forma como o cérebro aprende com recompensas, pela busca de alívio emocional, pelas crenças sobre sorte e controle e pelas características das próprias plataformas de apostas. Esses serão os próximos temas desta série.


Referências


Brasil. Ministério da Fazenda. Regulamentação feita pela Secretaria de Prêmios e Apostas coloca Brasil em mercado regulado de apostas em 2025. 2024.


Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas. 2026.


Brasil. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde inicia teleatendimento gratuito pelo SUS para quem enfrenta problemas com jogos e apostas. 2026.


Brasil. Ministério da Saúde. Brasil defende inclusão dos impactos dos jogos de apostas online na agenda global de saúde pública. 2026.


Revista Pesquisa FAPESP. Quase 11 milhões de brasileiros apostam de modo a pôr em risco a saúde e as finanças. 2025.


World Health Organization. Gambling. Fact sheet. 2024.

 
 
 

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