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Por que é tão difícil parar de apostar? Entenda o que acontece.

Palavra-chave principal: Por que é tão difícil parar de apostar

Meta descrição: Descubra por que é tão difícil parar de apostar. Entenda como o cérebro aprende com as recompensas, o papel da dopamina, do reforçamento intermitente e por que algumas pessoas desenvolvem o Transtorno do Jogo.

"Se eu sei que estou perdendo, por que continuo apostando?"

Ricardo (nome fictício) havia prometido para si mesmo que aquela seria sua última aposta. Na semana anterior, perdeu parte do salário em um cassino online. Apagou o aplicativo do celular, decidiu que precisava recuperar o controle da própria vida e passou alguns dias sem jogar. Mas bastou receber uma propaganda oferecendo um bônus de boas-vindas para sentir a vontade de apostar novamente.


"Vou jogar só um pouco."


Em poucos minutos, estava novamente diante da tela. Quando percebeu, havia perdido ainda mais dinheiro. Naquela noite, a pergunta voltou à sua cabeça:


"Se eu sei que isso está me fazendo mal, por que simplesmente não consigo parar?"


Essa é uma das perguntas mais frequentes entre pessoas que desenvolvem o Transtorno do Jogo. Muitas acreditam que o problema está na falta de força de vontade. A ciência mostra que a resposta é muito mais complexa. Para entendê-la, precisamos compreender como o cérebro aprende, toma decisões e modifica comportamentos ao longo da vida.


O problema não é apenas força de vontade.


Quando alguém continua apostando mesmo depois de acumular prejuízos financeiros, é comum ouvir comentários como:


"É só ter disciplina."

"Se realmente quisesse, já teria parado."

"Basta apagar o aplicativo."


Embora o autocontrole seja importante, essa explicação ignora como o comportamento humano funciona. Se abandonar um hábito dependesse apenas de força de vontade, ninguém continuaria fumando depois de descobrir os riscos do cigarro. Ninguém desenvolveria dependência de álcool. Ninguém permaneceria em comportamentos que reconhece como prejudiciais.


Na prática, sabemos que mudar um comportamento repetido durante meses ou anos costuma ser muito mais difícil. Isso acontece porque o cérebro foi desenvolvido para aprender com as consequências das nossas ações.

O cérebro está aprendendo o tempo todo

Imagine uma criança pequena. Ela encosta a mão em uma panela quente. Sente dor. Provavelmente evitará repetir esse comportamento.


Agora imagine outra situação.


Essa mesma criança recebe um abraço quando chora. Ou um elogio quando consegue andar de bicicleta. Essas experiências também modificam o comportamento. Nosso cérebro aprende continuamente observando o que acontece depois de cada ação.


Na Psicologia, esse processo é chamado de aprendizagem por consequências. Grande parte dos hábitos que desenvolvemos ao longo da vida surgiu dessa forma.


Escovar os dentes. Dirigir. Usar o celular. Praticar exercícios. Estudar.


Todos esses comportamentos foram fortalecidos porque produziram consequências importantes. Com as apostas acontece exatamente o mesmo.


O sistema de recompensa: um mecanismo essencial para a sobrevivência

Para entender por que as apostas podem se tornar tão difíceis de abandonar, precisamos conhecer um conjunto de estruturas cerebrais chamado sistema de recompensa. Apesar do nome, esse sistema não existe para nos fazer sentir prazer.


Sua principal função é ajudar o cérebro a aprender quais comportamentos valem a pena ser repetidos. Ao longo da evolução, esse mecanismo foi fundamental para a sobrevivência da espécie. Comer quando estamos com fome. Beber água quando sentimos sede. Buscar contato social. Cuidar dos filhos. Aprender novas habilidades.


Tudo isso depende, em alguma medida, do funcionamento desse sistema. Quando uma experiência é considerada importante, o cérebro registra essa informação e aumenta a probabilidade de repetirmos aquele comportamento no futuro. Esse mecanismo normalmente trabalha a nosso favor. O problema é que ele também responde a experiências artificiais capazes de produzir recompensas rápidas e imprevisíveis, como acontece nos jogos de apostas online.


Afinal, qual é o papel da dopamina?

Durante muitos anos, a dopamina ficou conhecida como o "neurotransmissor do prazer". Hoje sabemos que essa explicação é incompleta. A dopamina participa de diferentes funções cerebrais, mas uma das mais importantes é ajudar o cérebro a aprender com as recompensas e direcionar nosso comportamento para aquilo que parece ter valor.


Em vez de simplesmente produzir prazer, ela participa de processos relacionados à motivação, à antecipação e à aprendizagem.

Em outras palavras, ela ajuda o cérebro a responder à seguinte pergunta:

"Vale a pena fazer isso de novo?"

Quando uma experiência produz um resultado melhor do que o esperado, o cérebro fortalece as conexões envolvidas naquele comportamento, aumentando a probabilidade de ele ser repetido no futuro. Esse processo é extremamente importante para aprendermos. Mas também pode contribuir para a manutenção de comportamentos prejudiciais.

O que torna as apostas tão difíceis de abandonar?

Se fosse apenas a possibilidade de ganhar dinheiro, provavelmente as apostas não seriam tão persistentes. O grande diferencial está na forma como as recompensas acontecem. Nas apostas, ninguém sabe exatamente quando vai ganhar. Às vezes a pessoa perde várias vezes seguidas. Depois ganha uma quantia. Em seguida perde novamente. Essa imprevisibilidade não é um detalhe. Ela é justamente um dos mecanismos que mais fortalecem o comportamento de apostar. Na Psicologia da Aprendizagem, isso recebe o nome de reforçamento intermitente.


O reforçamento intermitente: um dos mecanismos mais poderosos da aprendizagem

Imagine uma máquina que, de forma imprevisível, entrega uma recompensa. Você nunca sabe se ela funcionará na próxima tentativa. Nem na seguinte. Nem depois dessa. Mesmo assim, continua tentando. Esse tipo de padrão produz um comportamento extremamente resistente à interrupção. É exatamente isso que acontece em muitos jogos de apostas.


A vitória não ocorre sempre. Mas acontece o suficiente para manter a expectativa de que ela pode surgir "na próxima". Esse padrão foi estudado durante décadas na Psicologia Experimental e é considerado um dos esquemas de reforço mais resistentes à extinção. Nos jogos digitais esse efeito pode ser ainda mais intenso.


Em um caça-níquel virtual ou em jogos popularmente conhecidos como "tigrinho", uma pessoa pode realizar dezenas ou até centenas de apostas em poucos minutos.

Isso significa centenas de oportunidades para que o cérebro fortaleça esse comportamento.


Nem todos os jogos funcionam da mesma maneira

Embora todas as modalidades envolvam apostas em dinheiro, elas apresentam características diferentes. Uma aposta esportiva costuma exigir algum tempo até que o resultado seja conhecido. Já muitos jogos de cassino online apresentam ciclos extremamente rápidos. O jogador aposta. Recebe o resultado em poucos segundos. E imediatamente pode apostar novamente.


Quanto menor o intervalo entre comportamento e consequência, maior tende a ser o potencial de aprendizagem. Isso ajuda a explicar por que jogos de alta velocidade costumam preocupar tanto pesquisadores e profissionais da saúde. Não é apenas o prêmio que importa. É a velocidade com que o ciclo se repete.

Os "quase ganhos" também influenciam o comportamento

Outro aspecto curioso é que o cérebro nem sempre responde apenas às vitórias. Em muitos jogos existem situações conhecidas como quase ganhos (near misses). São aquelas jogadas em que parece que a pessoa esteve muito perto de ganhar. Do ponto de vista racional, perder por pouco continua sendo perder. Mas diversos estudos mostram que esses quase ganhos podem aumentar a motivação para continuar jogando.


É como se o cérebro interpretasse aquela situação como um sinal de que a vitória está próxima, mesmo quando isso não aumenta objetivamente as chances de ganhar na tentativa seguinte.

"Só preciso recuperar o que perdi"

Depois de uma sequência de perdas, muitas pessoas acreditam que a solução é continuar apostando até recuperar o dinheiro. Esse comportamento é conhecido como "correr atrás do prejuízo" (loss chasing) e faz parte dos critérios diagnósticos do Transtorno do Jogo no DSM-5-TR. O problema é que cada nova aposta também envolve a possibilidade de uma nova perda. Assim, a tentativa de recuperar o prejuízo frequentemente acaba ampliando ainda mais as dificuldades financeiras e emocionais.


O cérebro muda? Sim, mas isso não significa que a recuperação seja impossível

Com o passar do tempo, apostar pode deixar de ser apenas uma atividade de lazer e passar a ocupar um espaço cada vez maior na vida da pessoa. Ela pensa constantemente no jogo. Sente vontade de apostar diante de determinados estímulos. Tem dificuldade para interromper o comportamento mesmo reconhecendo os prejuízos.


Isso não significa que perdeu completamente a capacidade de decidir.


Significa que diversos processos de aprendizagem passaram a favorecer automaticamente esse comportamento. A boa notícia é que o cérebro também é capaz de aprender novos padrões. A neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se modificar com a experiência — permite que comportamentos sejam enfraquecidos e substituídos por estratégias mais saudáveis quando a pessoa recebe tratamento adequado.

Por que compreender isso é importante?

Entender como o cérebro aprende não serve para retirar a responsabilidade pelas próprias escolhas. Também não significa que as pessoas sejam "programadas" para desenvolver uma dependência. O objetivo é outro. É substituir a culpa por compreensão.


Quando entendemos por que um comportamento se fortaleceu, fica mais fácil desenvolver estratégias eficazes para modificá-lo. É justamente nisso que se baseiam os tratamentos psicológicos com melhores evidências para o Transtorno do Jogo.


A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, ajuda a identificar os fatores que mantêm o comportamento de apostar, modificar padrões de pensamento, desenvolver novas formas de lidar com emoções difíceis e reduzir o risco de recaídas. As evidências atuais mostram que a TCC é o tratamento psicológico com maior suporte científico para reduzir a gravidade do transtorno, a frequência das apostas e os prejuízos associados.


Conclusão

Parar de apostar não costuma ser difícil porque a pessoa é fraca ou porque lhe falta caráter. É difícil porque o cérebro aprende continuamente com as consequências do comportamento, e os jogos de apostas foram construídos de forma a explorar mecanismos muito poderosos de aprendizagem, motivação e expectativa de recompensa.


Isso não significa que a recuperação seja impossível.


Significa apenas que ela exige mais do que promessas feitas após uma perda. Ela exige compreender como esse comportamento foi aprendido e, principalmente, como ele pode ser desaprendido. Nos próximos artigos, vamos aprofundar alguns dos mecanismos apresentados aqui, incluindo o papel da dopamina, do reforçamento intermitente, dos vieses cognitivos e das estratégias terapêuticas que hoje apresentam as melhores evidências para o tratamento do Transtorno do Jogo.


Referências


American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.


Clark, L. (2014). Disordered gambling: The evolving concept of behavioral addiction. Annals of the New York Academy of Sciences, 1327(1), 46–61.


Grant, J. E., & Chamberlain, S. R. (2020). Gambling disorder. The New England Journal of Medicine, 382(13), 1250–1256.


Pfund, R. A., Ginley, M. K., Kim, H. S., Boness, C. L., Horn, T. L., & Whelan, J. P. (2024/2025). Cognitive-behavioral treatment for gambling harm: Umbrella review and meta-analysis.


Schultz, W. (2016). Dopamine reward prediction-error signalling: A two-component response. Nature Reviews Neuroscience, 17, 183–195.


Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. Macmillan.


Elliott, M. V., Johnson, S. L., Pearlstein, J. G., Muñoz Lopez, D. E., & Keren, H. (2023). Emotion-related impulsivity and risky decision-making: A systematic review and meta-regression. Clinical Psychology Review, 100, 102232.

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Psicóloga Clinica - CRP 04/82897

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